Panem et Circenses 2.0: Da Bet ao Torcedor Político

Em junho de 2026, uma pesquisa do Datafolha revelou que a maioria dos brasileiros não consegue citar o nome de nenhum parlamentar em exercício. Nenhum deputado. Nenhum senador. A instituição que monopoliza o poder de legislar sobre a vida de 215 milhões de pessoas é, para a maior parte delas, um conjunto de rostos sem nome. Juvenal, no século I d.C., não precisava de dado algum: panem et circenses, escreveu, com a precisão cruel de quem já havia observado o espetáculo da cidadania convertida em plateia. O pão é o Bolsa Família. O circo é a Copa do Mundo. O gladiador digital é a bet. O opiáceo cívico é o carnaval. E o parlamentar, enquanto isso, pode governar em paz.

É nesse ambiente que o Brasil de 2026 chega ao primeiro semestre do ano eleitoral com 48% de aprovação e 48% de desaprovação ao governo Lula, segundo o Nexus/BTG, num empate técnico que seria cômico se não fosse sintomático. Sintomático de quê? De que o eleitorado está dividido não por programas, não por projetos de país, mas por tribos. Pela mesma razão pela qual 27% dos eleitores, segundo o Quaest, declararam estar fora da polarização entre Lula e Bolsonaro — e esse grupo, significativamente, é composto sobretudo de pessoas de baixa renda que tendem a acompanhar mais a economia do que disputas ideológicas. São os únicos que votam em algo concreto. O resto está votando em espelhos.

Eric Hoffer, em O Verdadeiro Crente (1951), dedicou páginas ao fenômeno que chamou de “movimento de massa”: aquele tipo específico de filiação em que o indivíduo não escolhe um programa, mas uma identidade substituta. O frustrado, escreveu Hoffer, não quer mudar o mundo; quer se dissolver nele. “Seu desejo principal é escapar desse eu — e é esse desejo que se manifesta na propensão para a ação unida e o autossacrifício. A repulsa a um eu indesejado, e o impulso de esquecê-lo, mascará-lo, desfazê-lo e perdê-lo, produz tanto a disposição de sacrificar o eu quanto a vontade de dissolvê-lo, perdendo a distinção individual num todo coletivo compacto.
Traduzindo para o português contemporâneo: o brasileiro não vota em Lula ou em Bolsonaro porque acredita em seus respectivos projetos de nação. Vota porque pertencer ao PT ou ao PL é mais barato cognitivamente do que pensar. As igrejas do petismo e do bolsonarismo funcionam pelo mesmo mecanismo que Hoffer identificou no fascismo, no comunismo e no protestantismo radical: oferecem identidade no atacado, a crédito, sem necessidade de coerência. O pior pobre não é o que não tem comida; é o que não tem eu. E nenhum dos dois campos está interessado em devolver esse eu a ninguém.

Hoffer foi ainda mais preciso ao tratar da credulidade como produto da frustração: “Não há esperança para o frustrado no real e no possível. A salvação só pode lhes chegar do milagroso.” E, citando Stresemann sobre os alemães, generalizou: os frustrados rezam não apenas pelo pão cotidiano, mas pela ilusão cotidiana. No Brasil de 2026, essa ilusão tem endereço, tem logotipo e, frequentemente, tem CNPJ.

O cardápio de escândalos disponível neste primeiro semestre merece análise estrutural, não moral. Estrutural porque o padrão é idêntico nos dois lados, e reconhecer isso é o mínimo de honestidade intelectual que a realidade exige.
Do lado A: a empresa da nora de Jaques Wagner aparece em pagamentos do Master; o relatório do escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes desapareceu dos sistemas da CGU; o filho de Gilmar Mendes exerce poder de bastidores na CBF enquanto o pai responde a acusações de fraude processual. O Economist definiu o STF como uma corte apanhada num escândalo de proporções vastas. A Folha revelou que um banco ligado ao PCC, uma intermediária da Dark Horse e debêntures sigilosas utilizaram o mesmo fundo. O Comando Vermelho domina garimpo ilegal em terra indígena e transforma ouro em moeda do crime.
Do lado B: Flávio Bolsonaro recebeu financiamento polêmico do BRB; o mesmo Flávio alega “equívoco” por usar verba do Senado para visitar Vórcaro, mas promete reembolsar — como se o equívoco não fosse exatamente a questão; Moro troca partido e vai ao PL com apoio de Flávio; Michelle Bolsonaro deixa de seguir os enteados nas redes sociais no mesmo dia em que Valdemar Costa Neto se reúne com ela para tentar encerrar a crise interna do partido.
No centro de pelo menos três dessas histórias está o mesmo nome: Vórcaro. Empresário, operador, presença constante em fotografias bipartidárias. Vórcaro é o Zelig da corrupção brasileira. Aparece com o PT. Aparece com o PL. Aparece, aparentemente, onde houver dinheiro e silêncio. E quando um lado o usa como acusação contra o outro, esquece sistematicamente de explicar o que fazia na mesma foto.

A Câmara, enquanto isso, avalia pedir aos EUA dados sobre financiamento ao crime organizado nas eleições de 2026. O STF forma maioria para liberar penduricalhos a juízes e promotores. O déficit do governo registra R$ 53,3 bilhões em maio. Uma auditoria revela até 80% de servidores fantasmas em secretarias do Rio de Janeiro. Ninguém que assistiu ao jogo da Copa, nenhum dos 27% fora da polarização e certamente nenhum dos que não sabem o nome de um único parlamentar está acompanhando isso com atenção sustentada.

Neil Postman avisou em 1985 que o problema não era a televisão em si, mas o que acontece quando o entretenimento se converte em epistemologia: quando a forma do espetáculo passa a definir o que conta como verdade, como argumento, como evidência. “Nossa política, religião, notícias, atletismo, educação e comércio foram transformados em adjuntos amigáveis do show business, em grande parte sem protestos ou mesmo muita atenção popular.” O que Postman descreveu para a televisão vale com juros para o ecossistema atual: a bet é um contrato de emoção contínua; o feed de rede social é um gerador de certeza tribal; e o escândalo político, quando chega a essa audiência, é consumido como mais um episódio de série. Condena quando envolve o adversário. Explica quando envolve o aliado. Não exige coerência porque nunca foi sobre coerência.

A crítica seletiva não é hipocrisia no sentido moral — é funcional. Ela permite permanecer na tribo sem pagar o custo cognitivo da consistência. Defender o partido do mesmo escândalo que se condenou no adversário é o preço de entrada no grupo. Não é fraqueza de caráter. É adesão ao contrato social do pertencimento.

Aldous Huxley antecipou o mecanismo com precisão incômoda. Em Admirável Mundo Novo, o Estado eficiente não precisava de coerção porque havia resolvido um problema anterior: fazer com que os escravos amassem a servidão. O soma não era imposto; era desejado. “À medida que diminui a liberdade política e econômica,” escreveu Huxley no prefácio de 1946, “a liberdade sexual tende a aumentar como compensação. Em conjunção com a liberdade de sonhar sob a influência das drogas, do cinema e do rádio, ela ajudará a reconciliar os súditos com a servidão que é o seu destino.
Substitua “cinema e rádio” por “Copa do Mundo, bet e polarização tribal” e o texto lê como relatório de 2026. A alforria real, nesse quadro, exigiria exatamente o que nenhum campo tem interesse em oferecer: a devolução do eu ao indivíduo, junto com a conta que vem com ele. Responsabilidade sem tricô ideológico. Julgamento sem exceção de partido. Memória que não apaga o que foi conveniente esquecer.

Isso, claro, não está no cardápio. Mas talvez valha perguntar quanto tempo ainda vamos achar que pão e circo são compensação suficiente — antes que a conta chegue com juros que nenhuma carteira, de nenhum lado, vai conseguir pagar.

Referências

  • HOFFER, Eric. The True Believer: Thoughts on the Nature of Mass Movements. New York: Harper & Row, 1951.
  • POSTMAN, Neil. Amusing Ourselves to Death: Public Discourse in the Age of Show Business. New York: Viking Penguin, 1985.
  • HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo [Brave New World, 1932]. Trad. brasileira com prefácio de 1946. São Paulo: Globo, 2001.
  • DATAFOLHA. Maioria dos brasileiros diz não saber ou não lembrar o nome de nenhum parlamentar. Estado de Minas, 29 jun. 2026. Disponível em: https://www.em.com.br/politica/2026/06/7450868. Acesso em: 29 jun. 2026.
  • QUAEST. Eleitor fora da polarização entre Lula e Bolsonaro soma 27%. O Antagonista, 28 jun. 2026.
  • NEXUS/BTG. 48% aprovam governo Lula; outros 48% desaprovam. CNN Brasil, jun. 2026.
  • THE ECONOMIST. Brazil’s almighty Supreme Court must win back public trust. The Economist, 27 fev. 2026.

Vinícius Rosoha Pereira é bacharel em Direito (UGV) e atua como Escrevente Juramentado na 1ª Vara Judicial de São Mateus do Sul, vinculado ao Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR). Como pesquisador e escritor, dedica-se à análise crítica das instituições públicas, investigando temas como judicialização, lawfare, políticas públicas e erosão democrática. É autor das obras Insuficiência da Legislação Brasileira no Combate ao Ransomware (2022) e A Sombra do Crime (2025).

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