BANCO MASTER: R$ 47 BILHÕES, ZERO CULPADOS E UMA CONTA QUE VAI CHEGAR EM SÃO MATEUS DO SUL – PR
Maio 27, 2026Existe uma habilidade tipicamente brasileira que nenhum curso de MBA ensina, mas que nossa classe política domina com perfeição: a arte de estar em tudo e não ser responsável por nada. O Banco Master é, até o momento, a obra-prima desse gênero.
Vamos aos fatos, porque eles são, por si sós, mais absurdos do que qualquer sátira que eu pudesse inventar. O banco emitiu em torno de R$ 50 bilhões em CDBs sem lastro real — ou seja, papéis que prometiam rentabilidade acima do mercado respaldados, no fundo, por nada muito concreto. Vendeu R$ 12,7 bilhões desses títulos ao BRB, banco público do Distrito Federal, cujo governador, Ibaneis Rocha, era até então um entusiasta da fusão. Captou recursos de 1,6 milhão de brasileiros. Mantinha escritório em Londres pagando o maior aluguel da cidade — £122 por pé quadrado, segundo o Financial Times — enquanto distribuía R$ 543 milhões em contratos para 91 escritórios de advocacia espalhados por todos os espectros políticos do país. Quando o castelo de areia desabou, em novembro de 2025, o Fundo Garantidor de Crédito precisou mobilizar R$ 41 bilhões para cobrir o buraco, o maior ressarcimento da sua história (TRANSPARÊNCIA INTERNACIONAL, O Caso Master, 2025). E a Polícia Federal descobriu, de quebra, que o banco mantinha uma “célula de intimidação” com acesso ilegal a sistemas da própria PF, da Interpol e do FBI (G1/GLOBO, mar. 2026).
Quem sabia de tudo isso? Praticamente todos os que deveriam saber. O Banco Central regulava. O TCU fiscalizava. O STF, por caminhos que serão explicados mais abaixo, tinha a questão em mãos. Mas quando Daniel Vorcaro foi preso, cada campo político do país já tinha a resposta pronta na ponta da língua. Nenhuma delas começava pela letra “eu”.
A direita entrou em campo com o seguinte roteiro: primeiro, silêncio. Depois, quando o silêncio ficou insustentável, relativização — “é um caso bancário, não político”. Depois, quando vieram os áudios de Flávio Bolsonaro com Vorcaro, migração total de assunto: todo o esforço narrativo se voltou para atacar Alexandre de Moraes e o ministro Toffoli, ambos com ligações documentadas no esquema, o que é real, mas funcionou perfeitamente como cortina de fumaça sobre a própria bancada bolsonarista envolvida (FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 2026). A esquerda, por sua vez, usou o caso como munição nos primeiros meses, e com razão parcial — parte da conexão bolsonarista é verificável. O problema é que, quando emergiram os R$ 129 milhões em honorários máximos ao escritório Barci de Moraes, e quando a relação de Toffoli com o banco ficou clara, o debate progressista misteriosamente afunilou. O “núcleo bolsonarista do esquema” passou a ser o único tema; as conexões com o campo governista viraram detalhe técnico, tratado com a delicadeza que se reserva para assuntos que ninguém quer ver em manchete (METRÓPOLES/NOBLAT, abr. 2026). O centrão, fiel à sua vocação histórica, não precisou mudar nada: chegou calado, ficou calado, e vai sair calado. Ibaneis Rocha, que defendia a fusão com o fervor de quem acredita no que diz, logo depois explicou que a decisão foi “técnica do BRB”, não dele — como se o governador fosse uma testemunha ocular da própria gestão (SP BANCÁRIOS, abr. 2026).
Isso tem nome. Theodore Dalrymple, médico e ensaísta britânico cuja ironia afia cada parágrafo como uma lâmina, chama de “evasivas admiráveis” a capacidade humana de encontrar circunstâncias que justifiquem o ocorrido e nos isentem da responsabilidade, descrevendo como essa habilidade de distanciar o agente da ação — fazendo parecer que a faca se guiou sozinha, não a mão — “é a sublime estupidez do mundo” (DALRYMPLE, Evasivas Admiráveis, 2017). No Banco Master, a faca foi o mercado. A mão foi ninguém.
George Orwell, cujos ensaios sobre linguagem e política continuam funcionando como raio-x do presente, identificou o mecanismo com precisão que assusta: a linguagem política é usada não para transmitir a verdade, mas para obscurecê-la. Eufemismos e frases abstratas existem para fazer com que as pessoas não consigam ver o que está de fato acontecendo (ORWELL, Política e a Língua Inglesa, 1946). No caso do Master, o eufemismo favorito foi “questão regulatória em apuração”. Tradução: ninguém faz nada por enquanto.
E aqui está o coração do problema, a estrutura por baixo do escândalo que nenhuma manchete vai explicar sozinha. Em artigo publicado no Forensic Research & Criminology International Journal, identifiquei três padrões discursivos que se repetem toda vez que o Brasil lida com uma grande crise financeira. O primeiro é a individualização moral: elege-se um vilão — no caso, Vorcaro — e o público se concentra nele enquanto a estrutura que o sustentou fica fora do foco. O segundo é o silêncio estratégico: instituições e políticos limitam seu discurso a negativas e esclarecimentos formais, sem nenhuma contextualização sobre ligações anteriores, o que reduz o campo de responsabilidade que pode ser exigido publicamente. O terceiro é o deslocamento procedimental: “a questão está no STF”, “o Bacen está apurando”, “há sigilo regulatório em curso” — esses enunciados não são mentiras, mas funcionam como muros. A responsabilidade sistêmica se converte em horizonte de competências, onde a prestação de contas fica sempre aguardando o próximo ato processual (PEREIRA, Theory of Proceduralized Illegality, FRCIJ, v. 14, n. 1, 2026). Esses três padrões não pertencem a nenhum lado do espectro político. A direita os usa. A esquerda os usa. O Judiciário os usa. O Banco Central os usa. São tecnologia de sobrevivência institucional — e funcionam exatamente porque cada um aponta o dedo para o outro enquanto o processo anda.
O que torna isso culturalmente possível é algo que Aaron Ansell documentou em pesquisa etnográfica sobre a vida política brasileira: a corrupção, no Brasil, não é percebida como exceção ao sistema. Ela é parte do funcionamento normal. O eleitor que ouve “rouba, mas faz” não está ignorando a corrupção — está dizendo que aprendeu a conviver com ela como dado da realidade, não como problema a resolver (ANSELL, The Elementary Forms of Corruption, 2025). Rubens Casara, jurista e professor, dá o nome jurídico para isso: no Estado pós-democrático, “a corrupção torna-se quase um modo de operação do sistema, integrado à lógica de poder e negócios, enquanto os mecanismos de controle mostram-se seletivos ou ineficazes” (CASARA, Estado Pós-Democrático, 2017). Não por acaso, o Brasil ocupa o 107º lugar entre 182 países no Índice de Percepção da Corrupção de 2025, com 35 pontos — e ninguém abriu uma CPI sobre o Banco Master (TRANSPARÊNCIA INTERNACIONAL, IPC 2025).
Levitsky e Ziblatt, no livro que virou referência obrigatória para entender o enfraquecimento silencioso das democracias, alertam que os sistemas não entram em colapso por rupturas espetaculares. Eles se deterioram pela erosão das normas informais, pelo acúmulo de pequenas concessões, pelo hábito de tratar o adversário como inimigo apenas quando é conveniente, e de tratá-lo como colega quando os contratos circulam (LEVITSKY; ZIBLATT, Como as Democracias Morrem, 2018). O Banco Master é um caso de manual: distribuiu dinheiro o suficiente para que cada lado tivesse alguma coisa a proteger, e criou o equilíbrio perfeito do escândalo que não avança.
Agora, a parte que a cobertura nacional raramente explica de forma clara: como isso chega até São Mateus do Sul, ou até qualquer cidade de porte médio do interior do Paraná.
O mecanismo é o seguinte. Municípios brasileiros que possuem Regime Próprio de Previdência Social — o RPPS, que é o fundo de aposentadoria dos servidores públicos municipais — são obrigados por lei a investir esse dinheiro em ativos conservadores. Na prática, muitos gestores municipais foram atraídos pelos CDBs do Banco Master por um motivo simples e compreensível: rendiam acima do CDI, tinham o FGC como garantia implícita, e pareciam seguros. Dezoito entes federativos foram mapeados com exposição total de R$ 1,86 bilhão. O Rioprevidência tinha R$ 970 milhões em risco — com 235 mil servidores inativos na linha de tiro. O Amapá, R$ 400 milhões. Cinco municípios paulistas somaram R$ 218 milhões (CNN BRASIL, nov. 2025; O GLOBO, nov. 2025). E o Ministério da Previdência confirmou o que qualquer gestor municipal teme ouvir: quando o fundo não tem recursos para pagar aposentadorias, o tesouro do município cobre a diferença.
São Mateus do Sul tem uma conexão direta, ainda que periférica, com o escândalo. O Ipresmat — Instituto de Previdência Municipal — aplicou R$ 2 milhões em 2014 no Fundo de Investimento Imobiliário São Domingos (FISD11), à época regularmente aprovado pela CVM. O fundo veio, anos depois, a integrar estruturas ligadas ao grupo Banco Master. Em nota oficial de dezembro de 2025, o Instituto esclareceu que não mantém relação direta com o banco, que o investimento foi realizado dentro das normas vigentes, e que já recuperou R$ 1,36 milhão do total investido, restando saldo de cerca de R$ 900 mil em processo de liquidação (IPRESMAT, Nota Oficial, dez. 2025; PORTAL RDX, dez. 2025).
O caso do Ipresmat não é, portanto, o de um fundo municipal destruído — é o de uma instituição que foi arrastada pela órbita de um esquema maior sem ter sido seu agente. Mas esse detalhe, paradoxalmente, ilustra com precisão o argumento central deste artigo: a contaminação do Banco Master foi tão capilar que alcançou, via engenharia de fundos, municípios cujos gestores fizeram tudo dentro das regras vigentes em 2014. O dano sistêmico não exige má-fé local. Ele viaja pelas estruturas legais, pelos FIIs registrados na CVM, pelas cadeias de securitização — e chega ao servidor municipal de São Mateus do Sul como um saldo de R$ 900 mil congelado num fundo em liquidação há quase uma década.
Para cidades onde a exposição foi de centenas de milhões — Maceió, Amapá, os municípios paulistas — o mecanismo é o mesmo, só que em escala que pressiona de fato alíquotas previdenciárias, verbas de saúde e orçamentos municipais. A professora da rede municipal que vê sua contribuição subir não sabe se o fundo da sua cidade estava entre os mais ou menos expostos. O aposentado que nota o serviço de saúde piorando não consegue rastrear isso até um esquema de R$ 47 bilhões discutido no STF. Essa incerteza — essa distância entre a origem do dano e quem eventualmente paga a conta — também é um produto do esquema. Funciona melhor quanto mais invisível for para quem arca com ele.
O escândalo perfeito, no Brasil, não é aquele em que ninguém fez nada errado. É aquele em que todo mundo fez algo suficientemente errado para que ninguém consiga jogar a primeira pedra sem receber uma de volta. O Banco Master chegou bem perto disso — distribuiu dinheiro, contratos e conexões com uma generosidade democrática que torna o debate político mais útil como espetáculo do que como instrumento de responsabilização. Enquanto a direita aponta para Toffoli, a esquerda aponta para Vorcaro, e o STF aponta para o processo, 1,6 milhão de brasileiros descobrem que eram a garantia de tudo isso sem ter assinado nada.
O contribuinte não assistiu ao espetáculo. Ele comprou o ingresso sem saber, vai financiar a saída de cena dos atores e provavelmente vai pagar pela próxima temporada — porque em nenhum momento do escândalo mais caro da história financeira recente do Brasil alguém interrompeu o jogo para perguntar, com seriedade e sem câmeras: de quem era a obrigação de não deixar isso acontecer?
REFERÊNCIAS
ANSELL, Aaron. The Elementary Forms of Corruption: Moral Imagination and Political Change in Brazil. 2025.
CASARA, Rubens R. R. Estado Pós-Democrático: neo-obscurantismo e gestão dos indesejáveis. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.
CNN BRASIL. Estados e municípios vão arcar com rombo do Master em fundos de previdência. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br. Acesso em: mai. 2026.
DALRYMPLE, Theodore. Evasivas Admiráveis: como a psicologia subverte a moralidade. São Paulo: É Realizações, 2017. Tradução de Julia C. Barros.
FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO. Escândalo expõe ligações de políticos de direita e mobiliza investigações. Disponível em: https://fpabramo.org.br. Acesso em: mai. 2026.
G1/GLOBO. Prisão de Daniel Vorcaro e o colapso do banco. mar. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/03/04. Acesso em: mai. 2026.
IPRESMAT — Instituto de Previdência Social dos Servidores Municipais de São Mateus do Sul. Nota Oficial. São Mateus do Sul, 2 dez. 2025. Assinada por Edenilson Kujawa, Diretor Presidente.
LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as Democracias Morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
METRÓPOLES/NOBLAT, Ricardo. O escândalo do Banco Master não é de direita nem de esquerda. abr. 2026. Disponível em: https://www.metropoles.com. Acesso em: mai. 2026.
O GLOBO. 18 fundos previdenciários de estados e municípios investiram no Master. nov. 2025. Disponível em: https://oglobo.globo.com. Acesso em: mai. 2026.
ORWELL, George. Política e a língua inglesa. 1946. In: Ensaios escolhidos. [s.l.: s.n.], 2023.
PEREIRA, Vinícius Rosoha. Theory of proceduralized illegality: narrative governance and accountability deferral in Brazilian financial accountability regimes (Banco Master, 2025–2026). Forensic Research & Criminology International Journal, v. 14, n. 1, p. 48-58, 2026. DOI: 10.15406/frcij.2026.14.00466.
PORTAL RDX. Ipresmat é citado em investigação sobre desvio bilionário envolvendo Banco Master; instituto se manifesta. 2 dez. 2025. Disponível em: https://portalrdx.com.br/02/12/2025/ipresmat-e-citado-em-investigacao-sobre-desvio-bilionario-envolvendo-banco-master-instituto-se-manifesta/. Acesso em: mai. 2026.
PORTINARI, Natália. Investigação apontou desvio de R$ 500 mi de fundos de pensão pelo Master. UOL Colunas, 1 dez. 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/colunas/natalia-portinari/2025/12/01/investigacao-apontou-desvio-de-r-500-mi-de-fundos-de-pensao-pelo-master.htm. Acesso em: mai. 2026.
SP BANCÁRIOS. Dinheiro, influência e omissões: o que as conexões políticas revelam sobre o caso Master. abr. 2026. Disponível em: https://spbancarios.com.br. Acesso em: mai. 2026.
TRANSPARÊNCIA INTERNACIONAL. O Caso Master: análise institucional e conflitos de interesse. Disponível em: https://transparenciainternacional.org.br/posts/o-caso-master/. Acesso em: mai. 2026.
TRANSPARÊNCIA INTERNACIONAL. Índice de Percepção da Corrupção 2025. Disponível em: https://transparenciainternacional.org.br/ipc/. Acesso em: mai. 2026.
Vinícius Rosoha Pereira é escrevente juramentado no 1º Juízo Cível da Comarca de São Mateus do Sul, pesquisador institucional e autor de A Sombra do Crime (2025) e do artigo Theory of Proceduralized Illegality (FRCIJ, 2026). Escreve a coluna “Entre Linhas” para o ClicSul News.
