Povo de Estimação: Como o Brasileiro Ama Seu Político e Odeia a Verdade

Povo de Estimação: Como o Brasileiro Ama Seu Político e Odeia a Verdade

Maio 29, 2026 0 Por Vinícius Pereira Vinícius

Existe uma espécie curiosa no ecossistema político brasileiro. Não é o corrupto — esse é mundano demais, encontrado em qualquer latitude. Não é o demagogo — figura tão antiga quanto a democracia ateniense. O que o Brasil produziu com maestria singular é o torcedor político: o cidadão que elege um lado como time do coração, veste a camisa com fervor de estádio e defende “o seu” mesmo quando o ídolo lhe rouba o ingresso, lhe cobre de cerveja rançosa e ainda pede voto na saída. Chamemos essa criatura pelo nome que merece: o povo de estimação. Adestrado. Fiel. Útil.

Esta semana ofereceu três episódios clínicos dessa patologia nacional. Três cenas de um mesmo teatro de horrores que o brasileiro assiste confortavelmente, torcendo pelo enredo e esquecendo que é também o personagem que sofre.

O Governo que Chamou Terrorista de “Problema Interno”

Na quinta-feira, 28 de maio de 2026, o secretário de Estado americano Marco Rubio anunciou que os Estados Unidos classificariam o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como Organizações Terroristas Estrangeiras, com vigência a partir de 5 de junho. A nota do Departamento de Estado foi direta: as redes das facções “se estendem muito além das fronteiras do Brasil” e representam ameaça à segurança americana.

O Brasil demorou a chegar lá. O governo Lula passou anos relutando em nomear o que todo investigador de segurança pública já sabia. Em abril, o próprio presidente declarou: “Essa guerra é nossa, essa guerra não é dos Estados Unidos”. A frase tem o charme retórico da soberania nacional e o conteúdo prático de quem encontra um incêndio no próprio quintal e se recusa a chamar o bombeiro porque “o fogo é meu”.

Enquanto isso, a Receita Federal revelava que seis plataformas financeiras — fintechs, para usar o eufemismo elegante — movimentaram R$ 26 bilhões em operações suspeitas ligadas ao crime organizado, sendo pelo menos R$ 1 bilhão rastreado diretamente para o PCC. R$ 1 bilhão. Não em cocaína de biqueira. Em transferências digitais, em algoritmos, em botões de aplicativo.

Isso não deveria surpreender. Em A Sombra do Crime, demonstrei com evidências institucionais que o crime organizado brasileiro há muito transcendeu a figura do traficante de esquina. O PCC e o CV, como analisei ao longo da obra, “desenvolveram sistemas internos de justiça, comunicação, financiamento e governança que imitam, contestam e, muitas vezes, superam o poder estatal” (PEREIRA, A Sombra do Crime, s.d., p. 119). Não é mais o bandido da viela. É o sócio invisível da fintech, o lobbysta do legislativo municipal, o financiador da campanha que ninguém assina.

O governo sabia. As agências sabiam. A Receita Federal sabia. Mas nomear é comprometer-se, e comprometimento político tem custo eleitoral. Então o problema virou “questão de soberania” — e o povo de estimação petista aplaudiu de pé, porque o importante não era derrotar o crime. Era derrotar a narrativa do adversário.

Orwell, em Política e a Língua Inglesa, advertiu que a linguagem política serve, com frequência, não para transmitir a verdade, mas para obscurecê-la, “fazendo mentiras parecerem verdadeiras e assassinatos respeitáveis” (ORWELL, Política e a Língua Inglesa, 1946). A “soberania nacional” no discurso do Planalto exerceu exatamente essa função: transformou a inação em princípio, a omissão em postura diplomática, e entregou ao torcedor fiel um bordão para gritar nas redes sociais enquanto a fintech girava o bilhão.

O Senador que Foi a Washington e Voltou com Escândalo

No outro lado do ringue, Flávio Bolsonaro foi à Casa Branca, sentou com Rubio, apresentou-se como o campeão da classificação terrorista e voltou ao Brasil tentando capitalizar a decisão americana como vitória pessoal. O estrategista eleitoral Roberto Reis definiu a situação, com precisão de xadrez, como um zugzwang para Lula — posição em que qualquer movimento prejudica.

O problema é que o senador voltou com um escândalo debaixo do braço.

Enquanto exibia o troféu anticrimen em Washington, o The Intercept Brasil e a Agência Pública revelavam que Flávio havia negociado com Daniel Vorcaro — banqueiro preso pela Polícia Federal por envolvimento em fraudes bilionárias — o financiamento de R$ 134 milhões para o filme Dark Horse, cinebiografia de seu pai. Segundo as investigações, ao menos R$ 61 milhões já haviam sido transferidos, parte deles desviada para fundos nos Estados Unidos através de aliados de Eduardo Bolsonaro. O Financial Times chamou o projeto de “comédia de erros” antes mesmo de sua estreia.

A ironia é de espessura considerável: o senador que pede classificação de terrorismo para organizações criminosas negocia financiamento com um homem preso por crimes financeiros. A mesma direita que ergue cartaz de “Lei e Ordem” na manifestação passa o chapéu para o banqueiro encarcerado.

Orwell descreveu esse mecanismo com uma clareza que envergonha qualquer analista contemporâneo: “As ações se consideram boas ou más não por seus méritos, mas segundo quem as leve a cabo” (ORWELL, Notas sobre el Nacionalismo, 1945). O povo de estimação bolsonarista, fiel como sempre, leu as notícias do Dark Horse, atualizou o status para “perseguição política” e dormiu tranquilo.

O Deputado que Votou a Favor e Torceu pelo Fracasso

O episódio mais revelador da semana, no entanto, foi protagonizado por Nikolas Ferreira na tribuna da Câmara dos Deputados na noite de quarta-feira, 27 de maio.

A PEC 221/19 — que extingue a escala 6×1 e reduz a jornada semanal para 40 horas — foi aprovada em dois turnos com placar histórico: 461 votos a favor, 19 contra. Nikolas votou a favor. E então subiu à tribuna para dizer que torcia para a medida dar errado.

Literalmente. Textualmente. Sem metáfora.

“Quando tiver demissão em massa, quando aumentar o preço dos produtos, quando o empreendedor não conseguir mais e tiver que demitir a pessoa para contratar outra, aí, meus amigos, esse dia vai ser maravilhoso. Quando acontecer, eu estarei pronto, de roupa pronta para falar: quem é o responsável por isso são vocês”, declarou o deputado em plenário.

Pause. Respire. Releia.

Um deputado federal votou a favor de uma medida enquanto, simultaneamente, declarava em público que esperava com alegria que ela produzisse desemprego em massa — para poder responsabilizar os adversários antes das eleições. Não é cinismo escondido. É cinismo anunciado no microfone, com câmeras ligadas, perante o plenário da República.

Renan Santos, do MBL, ao menos teve o mérito de nomear: “É um cara novo que acabou de chegar no Congresso e já se corrompeu nesses quatro anos de mandato”. A briga interna da direita que se seguiu — Nikolas versus Santos — teve a textura de uma disputa de vestiário: dois jogadores discutindo quem passou a bola errada enquanto o torcedor, lá na arquibancada, nem percebeu que o estádio está pegando fogo.

Theodore Dalrymple, em Evasivas Admiráveis, analisou com precisão cirúrgica o mecanismo da isenção de responsabilidade na linguagem contemporânea. Como observou ao citar o personagem de Shakespeare, há sempre “a admirável desculpa do homem devasso — responsabiliza uma estrela por sua devassidão!” (DALRYMPLE, Evasivas Admiráveis, 2017, p. 62). Nikolas não responsabilizou a estrela — responsabilizou a esquerda, com antecedência, antes que o mal acontecesse, com voto favorável no bolso. É uma inovação na arte da evasiva.

A Caverna Tem Wi‑Fi e Notificações Ativas

O que une esses três episódios é mais profundo que hipocrisia — esse é um defeito banal, encontrável em qualquer democracia. O que os une é a cumplicidade entusiástica do torcedor. O povo de estimação não é vítima passiva. Ele quer ser enganado, contanto que o engano venha embalado com as cores do seu time.

Eric Hoffer, em O Verdadeiro Crente, identificou o mecanismo com brutalidade: “o verdadeiro crente é movido mais pela decepção consigo mesmo do que por amor genuíno à causa” (HOFFER, O Verdadeiro Crente, 1951, p. 15). O fã não defende o político porque o político é bom. Defende porque precisa que ele seja bom — porque se o ídolo cair, a identidade desmorona junto. Largar o time é admitir que o ingresso custou caro demais por algo que nunca existiu.

Platão já havia descrito esse povo dois mil e quatrocentos anos atrás, com a pedagogia cruel de quem não tinha redes sociais mas entendia de natureza humana. Na Alegoria da Caverna, os prisioneiros acorrentados tomam por realidade as sombras projetadas na parede. Mais do que isso — quando alguém tenta libertá-los, resistem. “Para os prisioneiros, a verdade não seria nada além das sombras dos objetos” (PLATÃO, A República, Livro VII, 514a–517a). A caverna brasileira tem wi‑fi, notificações ativas e algoritmo de reforço. As sombras são mais nítidas, mais rápidas e mais sedutoras do que nunca.

O resultado é um eleitorado que assiste a um governo federal que reluta em nomear organizações bilionárias de crime como terroristas, a um pré-candidato que financia propaganda com dinheiro de banqueiro preso e a um deputado que vota por algo esperando que fracasse — e, ao final do dia, escolhe um desses três como seu representante e vai dormir convicto de que fez a escolha certa.

No artigo Entre a Soberania Estilhaçada e o Estado Sombra, observei que “o fanático decepcionado com uma seita não necessariamente se torna equilibrado — ele pode simplesmente trocar de fanatismo, pois o que ele busca não é a verdade da doutrina, mas o alívio psicológico de pertencer e crer cegamente” (PEREIRA, Entre a Soberania Estilhaçada e o Estado Sombra, 2025, p. 88). O povo de estimação não muda de dono. No máximo, troca de coleira.

Quem Paga a Conta

Existe no Brasil um personagem que aparece raramente nos discursos de tribuna e nas lives de campanha. É aquele que acorda às cinco da manhã para pegar o ônibus que demora quarenta minutos além do horário, trabalha em escala que não é sua escolha, paga impostos que financiam o cinema do senador preso pelo banqueiro, mora no bairro onde a facção governa porque o Estado nunca chegou, e ainda assim vai às urnas com a camisa do time.

Esse personagem não é herói. Não é vítima no sentido sentimental. É, tragicamente, cúmplice — porque o espetáculo político brasileiro só funciona com plateia. E a plateia comparece, paga o ingresso e grita o nome do jogador que jogou contra ela.

O povo de estimação não tem candidato. Tem dono. E o dono sabe que o animal doméstico mais fácil de manter não é aquele que come muito — é aquele que nunca percebe que está na gaiola.

Referências

CORREIO BRAZILIENSE. EUA vão classificar PCC e CV como organizações terroristas, diz Rubio. Brasília, 28 maio 2026. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2026/05/7430406. Acesso em: 28 maio 2026.

DALRYMPLE, Theodore. Evasivas admiráveis: como a psicologia subverte a moralidade. Tradução de Julia C. Barros. São Paulo: É Realizações, 2017.

GAZETA DO POVO. Decisão dos EUA de classificar PCC e CV como terroristas é derrota de Lula; Flávio comemora. Curitiba, 28 maio 2026. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/republica. Acesso em: 28 maio 2026.

HOFFER, Eric. O verdadeiro crente: pensamentos sobre a natureza dos movimentos de massa. Tradução de Vera Lúcia de Oliveira Bittencourt. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1980.

METRÓPOLES. Por que Lula não queria que EUA classificasse PCC e CV como terroristas. Brasília, 28 maio 2026. Disponível em: https://www.metropoles.com/brasil. Acesso em: 28 maio 2026.

METRÓPOLES. “Quando tiver demissão em massa, será um dia maravilhoso”, diz Nikolas. Brasília, 28 maio 2026. Disponível em: https://www.metropoles.com/minas-gerais. Acesso em: 28 maio 2026.

O ANTAGONISTA. Fintech investigada movimentou R$ 1 bilhão para o PCC, diz Receita. São Paulo, 28 maio 2026. Disponível em: https://oantagonista.com.br/brasil/fintech-investigada-movimentou-r-1-bilhao-para-o-pcc-diz-receita. Acesso em: 28 maio 2026.

ORWELL, George. Notas sobre el Nacionalismo. [1945]. Edição digital: Titivillus, 2021.

ORWELL, George. Política e a língua inglesa. [1946]. Tradução e adaptação disponível em acervo do projeto.

PEREIRA, Vinícius Rosoha. A sombra do crime. s.l.: s.n., s.d.

PEREIRA, Vinícius Rosoha. Entre a soberania estilhaçada e o Estado sombra. Gralha Azul – Periódico Científico da EJUD-PR, Curitiba, 2025.

PLATÃO. A República, Livro VII, 514a–517a. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.

PÚBLICA, AGÊNCIA. Flávio Bolsonaro, Vorcaro, Master: o escândalo do filme Dark Horse Azarão. São Paulo, maio 2026. Disponível em: https://apublica.org/2026/05/flavio-bolsonaro-vorcaro-master-escandalo-filme-dark-horse-azarao. Acesso em: 28 maio 2026.

THE INTERCEPT BRASIL. Áudio: Flávio Bolsonaro negociou com Daniel Vorcaro R$ 134 milhões para bancar filme sobre Jair. São Paulo, 13 maio 2026. Disponível em: https://www.intercept.com.br/2026/05/13/audio-flavio-negociou-vorcaro-milhoes. Acesso em: 28 maio 2026.