O Animal Doméstico da República: Elogio da Coleira em Ano Eleitoral

Há uma piada rodando o Brasil há décadas, mas ninguém ri porque ninguém percebeu que é o protagonista dela. Não é o deputado que “luta” por uma verba e batiza meio prédio com o próprio nome. Não é o ministro que jura guardar a Constituição enquanto figura em inquérito. Não é sequer o presidente cujo filho vira personagem de operação da Polícia Federal. Esses são apenas os atores coadjuvantes de um enredo cujo protagonista, cúmplice e plateia é a mesma pessoa: você, eleitor brasileiro, que aplaude de pé um espetáculo em que é simultaneamente vítima e figurante pago.

A graça — se é que existe alguma — está na coreografia. Lula precisou de Marina Silva, Geraldo Alckmin, Soraya Thronicke e Simone Tebet como vilões prediletos até o cálculo eleitoral transformá-los em aliados de ocasião; Sergio Moro foi o herói de toga que virou ministro denunciante da própria PF para, alguns anos depois, retornar ao establishment como se nada tivesse acontecido. O roteiro é sempre o mesmo, e Maquiavel já havia dado a receita antes de qualquer um deles nascer: os fins justificam os meios, e a aliança de ontem com o “vilão” vira a ponte de hoje para vencer o “vilão” seguinte. O que muda é só o nome do inimigo do momento — o resto é fórmula, e fórmula não precisa de princípios, precisa de aritmética eleitoral. A pergunta que ninguém faz em voz alta é: quanto valem os seus princípios, leitor, quando você aplaude a mesma manobra em nome do seu time e a chama de traição quando o time adversário faz idêntico?

A resposta desconfortável é que o brasileiro não foi escravizado por ninguém. Ele se candidatou ao posto. Étienne de La Boétie escreveu, ainda no século XVI, que “a tirania não nasce de força ou violência, mas do desejo de servir” (LA BOÉTIE, Discurso da Servidão Voluntária, 1548), e que bastaria ao povo deixar de servir para se libertar — não há exército capaz de subjugar quem simplesmente recusa o jugo. La Boétie comparava o povo domesticado a cavalos que deixam de morder o freio e passam a usar, ufanos, os arreios que os apertam. Troque o freio por um cargo comissionado, uma emenda parlamentar ou uma foto de política com um Deus qualquer da fé em campanha, e o retrato de 1548 continua atualíssimo em 2026.

Tocqueville foi ainda mais preciso ao descrever o mecanismo desse jugo voluntário nas democracias modernas, e o fez sem precisar de grilhão algum. Nas repúblicas democráticas, escreveu, a tirania “deixa o corpo e vai direto à alma“: o poder não diz mais “pensará como eu ou morrerá“, diz “você é livre de não pensar como eu; sua vida, seus bens, tudo lhe resta; mas a partir deste dia você é um estrangeiro entre nós” (TOCQUEVILLE, A Democracia na América, v. 2, p. 300). Não é preciso calabouço quando a exclusão social, o cancelamento de grupo de WhatsApp e o linchamento de rede social fazem o mesmo trabalho com mais eficiência e menos testemunhas. O brasileiro não defende seu político de estimação por medo de bala — defende por medo de virar pária do próprio grupo, e essa é uma servidão infinitamente mais barata de produzir e infinitamente mais difícil de admitir.

E o que esse animal doméstico ganha em troca da coleira? Deveria bastar olhar para o extrato bancário de quem promete cuidar dele. Enquanto o trabalhador brasileiro gasta quase um terço do ano só para pagar imposto e ainda assim não fecha o mês com o salário mínimo, o patrimônio declarado da classe política dispara em praticamente todo o espectro ideológico às vésperas da eleição de 2026, numa demonstração didática de que a única verba que nunca atrasa é a própria. À esquerda, levantamento do TSE mostrou o patrimônio de Paulo Pimenta subir 870%, o de Jaques Wagner 631%, o de Manuela D’Ávila 202% (dados apurados por Contrafatos, ago. 2026) — enquanto Lula, coincidentemente em ano eleitoral, declarou queda de 35,7% no próprio patrimônio, de R$ 7,4 milhões para R$ 4,8 milhões (G1, 08 ago. 2026), um número que qualquer contador aposentado sabe ler nas entrelinhas. À direita, Guilherme Derrite e Ricardo Salles mais que dobraram o patrimônio, enquanto Romeu Zema chegou a registrar candidatura declarando R$ 178,7 milhões em bens, o maior valor entre os pré-candidatos já registrados (VALOR, 06 ago. 2026).

À direita, o fenômeno também dispensa desculpas ideológicas. Zoé Martínez, vereadora do PL e candidata à Câmara dos Deputados por São Paulo, declarou patrimônio de R$ 646,3 mil em 2024 e R$ 2,1 milhões em 2026 — alta de 226,16% em dois anos, conforme os dados enviados à Justiça Eleitoral. Os números, por si, não provam ilícito algum; mostram apenas que o eleitor que exige uma autópsia financeira do adversário frequentemente se satisfaz com um bilhete de parabéns quando a multiplicação ocorre dentro do próprio curral ideológico.

No meio disso, o filho do presidente, Fábio Luís “Lulinha” Lula da Silva, tornou-se alvo de inquéritos abertos no STF pela Polícia Federal para apurar se facilitou o acesso de empresários ao governo federal em troca de pagamentos — episódio que fez o próprio ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio “Marcola” Santana Ribeiro, ser associado a recursos vindos do esquema de descontos indevidos do INSS, que teria desviado mais de R$ 6 bilhões de aposentados entre 2019 e 2024 (VEJA; GAZETA DO POVO, ago. 2026). Ronaldo Caiado resumiu com uma frase de sabatina que deveria constar em qualquer manual cívico: o escândalo do príncipe já chegou à antessala do rei (G1, 04 ago. 2026).

E não é só o extrato bancário que atravessa a fronteira da conveniência. Sergio Moro saiu do governo Bolsonaro denunciando interferência política na Polícia Federal e, anos depois, voltou ao circuito das alianças institucionais como se a ruptura tivesse sido apenas uma pausa comercial. Flávio Bolsonaro, por sua vez, traz o desgaste público do caso das “rachadinhas” e da proximidade política com personagens que seu eleitorado costuma absolver por atacado. Frederick Wassef, que atuou na defesa de Flávio, foi alvo de procedimento investigatório do Ministério Público Federal no Rio de Janeiro por suspeitas de peculato, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa — procedimento distinto do caso das rachadinhas e que, evidentemente, não equivale a condenação. Mas, para o devoto partidário, investigação contra o inimigo é prova final; contra o amigo, é perseguição com carimbo e firma reconhecida.

Valdemar Costa Neto completa a aula prática de amnésia seletiva. Personagem do mensalão e integrante da base governista no período lulista, tornou-se presidente do PL e articulador do bolsonarismo — porque, no Brasil, a coerência não morre: ela apenas troca de partido. Mais recentemente, Valdemar manteve apoio político a Ciro Nogueira, ex-ministro de Bolsonaro, mesmo depois de o senador ser alvo de busca e apreensão em investigação da Polícia Federal relacionada ao Banco Master. Não se trata de condenar investigados antes do processo; trata-se de notar como o discurso moralista sobrevive intacto à companhia de aliados sob apuração, desde que estejam sentados no palanque certo.

Flávio Bolsonaro também apareceu em ambiente religioso ao lado de Valdemiro Santiago, líder da Igreja Mundial do Poder de Deus. Santiago foi alvo, em 2020, de acusação relacionada à venda de sementes apresentadas como capazes de curar a Covid-19; o inquérito foi posteriormente arquivado a pedido do Ministério Público de São Paulo após perícia apontar adulteração no material que sustentava a imputação. A crítica, portanto, não é inventar-lhe uma condenação que não existe, mas apontar a velha fotografia eleitoral: político procurando voto, líder religioso oferecendo aura e fiel pagando a conta — às vezes em dinheiro, às vezes em credulidade.

Esquerda, direita, centro — não importa a sigla, o patrimônio sempre encontra caminho para crescer quando o eleitor está de olho no adversário e nunca no próprio time.

Aqui cabe uma ressalva que não é retórica, é método: comparar o funcionamento burocrático da corrupção brasileira ao aparato descrito por Hannah Arendt não é equiparar tragédias — a distância moral entre um esquema de desvio de verba pública e uma máquina de extermínio é abissal, e fingir o contrário seria desonestidade intelectual. O que se toma emprestado de Arendt não é a escala do horror, é o mecanismo do não-pensar. Arendt descreveu o “cidadão modelo” do domínio total como um espécime reduzido a reações, um cão de Pavlov humano que reage sem refletir (ARENDT, Origens do Totalitarismo, cap. “O Domínio Total”). O Brasil não tem campos de concentração, mas tem uma engrenagem administrativa perfeitamente capaz de produzir, em escala industrial, o eleitor que reage por reflexo condicionado ao estímulo da cor partidária e nunca ao conteúdo do ato. A senadora que denuncia corrupção alheia enquanto emenda R$ 65 milhões passam pelo próprio gabinete; o desembargador investigado ao lado de um ex-governador na Operação Heritage por desvios nos fundos do Banco Master (O TEMPO, 06 ago. 2026); o senador apontado pela PF como peça central de esquema de lavagem enquanto a esposa recebe R$ 11 milhões (G1, 04 ago. 2026) — nada disso choca mais ninguém, porque deixou de ser escândalo para virar rotina administrativa, e rotina, como ensinou Arendt sobre a burocracia do mal, é o disfarce mais eficiente que a maldade jamais inventou.

Nelson Rodrigues, sem citar um único filósofo alemão, já havia detonado o mecanismo com uma frase que caberia em qualquer camiseta: “toda unanimidade é burra” (RODRIGUES apud CASTRO, Observatório da Imprensa, 2012). A unanimidade brasileira em torno do “meu político não é corrupto, o corrupto é o do outro lado” não é opinião — é ausência de pensamento travestida de convicção. E é exatamente aqui que Albert Camus fecha o cerco: para ele, toda revolta que se permite negar a solidariedade humana básica “perde o nome de revolta e coincide, na realidade, com um consentimento assassino” (CAMUS, O Homem Revoltado). Trocando em miúdos: quem finge indignação seletiva, gritando contra a corrupção do inimigo e calando diante da corrupção do aliado, não está revoltado — está consentindo, com verniz de indignado. Camus foi além ao descrever o que sobra quando a revolta se corrompe pelo ressentimento: “a turba zombeteira de pequenos rebeldes, embriões de escravos, que acabam se oferecendo hoje, em todos os mercados da Europa, a qualquer servidão” (CAMUS, O Homem Revoltado). Substitua “mercados da Europa” por “grupo de WhatsApp da família” e o diagnóstico chega pronto para consumo nacional.

Eric Hoffer explicaria a genealogia emocional desse embrião de escravo. Para ele, o fanático de causa é fabricado pela frustração de quem não encontra propósito na própria vida e o terceiriza para uma bandeira — e o resultado mais irônico de todos é que “é surpreendente ver como os oprimidos quase invariavelmente se moldam à imagem de seus odiados opressores” (HOFFER, Do Fanatismo: O Verdadeiro Crente, 1951; ed. bras. Guerra & Paz, 2007). O bolsonarista que hoje ataca o “sistema” se comporta, ano após ano, exatamente como o petista que atacava o “sistema” antes dele — e vice-versa —, porque o alvo é intercambiável, a estrutura psicológica é a mesma peça reposta em série. Hoffer também escreveu, numa frase que serve de necrológio antecipado para qualquer debate político nas redes: o verdadeiro crente sobrevive graças à sua capacidade de “fechar os olhos e tapar os ouvidos” a qualquer fato que ameace a fé partidária (HOFFER, idem). Não é ignorância — é uma escolha ativa, diária, de manutenção da própria cegueira.

E se alguém perguntar por que ninguém julga o próprio time com o rigor que reserva ao adversário, Theodore Dalrymple já respondeu antes mesmo de a pergunta ser feita. Ele descreveu a moderna “doutrina do Eu Verdadeiro” — a ideia de que existe, dentro de cada pessoa, um núcleo de bondade mais real que qualquer ato cometido, e que julgar esse ato seria injusto com a “essência” do sujeito (DALRYMPLE, Evasivas Admiráveis, trad. Julia C. Barros, São Paulo: É Realizações, 2017). É a mesma lógica, adaptada ao figurino tupiniquim: “ele é corrupto, mas no fundo é um cara do bem“, “ela desviou, mas defende as pautas certas” ou ainda adaptando ao contexto munícipe “ele não têm preparo, mas vai representar o município em Brasília“. Dalrymple identificou três motores dessa recusa moral: medo de julgar demais, desejo de não parecer intolerante, esperança de que o mal desapareça sozinho se ninguém o nomear. Nenhum desses três motores exige coragem. Todos os três são, coincidentemente, os ingredientes exatos do eleitor brasileiro médio diante do próprio candidato.

No fim, ninguém tirou a liberdade do brasileiro. Ele a devolveu, embrulhada para presente, em troca de uma picanha que nunca chegou e de um “não somos contra o roubo, somos apenas contra ser roubados” que Millôr Fernandes escreveu como piada e o eleitorado transformou em programa de governo tácito (FERNANDES apud GAZETA DO POVO, 2020). Millôr também definiu os Três Poderes como “o Legislativo, o Executivo e a Corrupção” (FERNANDES apud TERRA, 2013) — o único órgão da República que nunca sofre corte orçamentário, independentemente de quem vença a eleição. A generalização é injusta com os poucos que ainda tentam fazer política de outro jeito, mas é rigorosamente justa com a média — e média, em democracia, é o que decide o placar.

La Boétie fechava seu discurso com uma imagem que dispensa qualquer comentário adicional: não é preciso arrancar a liberdade do povo à força, basta que ele deixe de servir, “e vereis, como um grande colosso a quem retiraram a base, cair pelo próprio peso e se espatifar“. O Brasil segue de pé, arreios ajustados, patrimônio dos donos em expansão, aposentado com desconto indevido no contracheque, padeiro preso por acreditar num golpe que não aconteceu, e o eleitor aplaudindo a coreografia com a mesma energia de quem não percebeu, ainda, que a plateia é o espetáculo. A piada continua sendo contada todos os dias. Só falta alguém rir de si mesmo antes que seja tarde demais para o troco não vir em forma de eleição, mas de conta.


Referências

ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo: antissemitismo, imperialismo, totalitarismo. Cap. “O Domínio Total”.
CAMUS, Albert. O Homem Revoltado.
CNN BRASIL. Ainda queremos Ciro Nogueira no palanque de Flávio, diz Valdemar à CNN. 12 maio 2026.
CONTRAFATOS. Patrimônio de políticos de esquerda dispara e chega a crescer 870% em poucos anos. Ago. 2026.
DALRYMPLE, Theodore. Evasivas Admiráveis: como a psicologia subverte a moralidade. Tradução de Julia C. Barros. São Paulo: É Realizações, 2017.
ESTADÃO. Mesmo após investigações, PL ainda quer Ciro Nogueira no palanque de Flávio Bolsonaro, diz Valdemar.
FERNANDES, Millôr apud GAZETA DO POVO. 20 frases inesquecíveis de Millôr Fernandes.
FERNANDES, Millôr apud TERRA. Frases de Millôr Fernandes, 2013.
G1. Bens de Lula caem 36% e os de Alckmin mais que triplicam. 08 ago. 2026.
G1. PF diz que Weverton fazia pedidos, indicava beneficiários e cobrava pagamentos em esquema de lavagem de dinheiro. 04 ago. 2026.
G1. Ronaldo Caiado cita rachadinha e mensalão para falar de corrupção. 04 ago. 2026.
GAZETA DO POVO. Marcola reaviva crise de Lulinha e amplia desgaste de Lula. Ago. 2026.
HOFFER, Eric. Do Fanatismo: O Verdadeiro Crente e a Natureza dos Movimentos de Massas. Lisboa: Guerra & Paz, 2007 [ed. orig. The True Believer, 1951]. Citações apud Instituto Liberal e Instituto Millenium. [Compilação secundária — sem verificação de página na edição impressa].
JORNAL DE BRASÍLIA. Zoé Martinez triplica patrimônio e perde o gabinete inteiro em dois dias. 07 ago. 2026.
LA BOÉTIE, Étienne de. Discurso da Servidão Voluntária. 1548. Tradução disponível em rothbardbrasil.com.
MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. 1513. [Referência conceitual, sem citação direta].
O GLOBO. Advogado da família Bolsonaro é investigado pelo MPF do Rio. 26 ago. 2020.
O GLOBO. Ex-advogado de Flávio Bolsonaro, Wassef é “novato” em processos criminais. 22 jun. 2020.
O TEMPO. PF apura esquema com fundos do Master, ex-governador e aliados. 06 ago. 2026.
RODRIGUES, Nelson apud CASTRO, Ruy. In: Observatório da Imprensa, “Sempre a favor da discussão”, 2012.
SBT NEWS. Patrimônio de Zoé Martínez triplica em 2 anos como vereadora. 05 ago. 2026.
TOCQUEVILLE, Alexis de. A Democracia na América. v. 2, p. 300.
UOL. Valdemiro Santiago: veja as condenações da Igreja Mundial. 07 jul. 2022.
VALOR (Globo). Zema registra candidatura e declara R$ 178,7 milhões em bens. 06 ago. 2026.
VEJA. Investigações envolvendo Lulinha trazem de volta o tema corrupção para o centro da eleição. Ago. 2026.

Vinícius Rosoha Pereira é bacharel em Direito (UGV) e atua como Escrevente Juramentado na 1ª Vara Judicial de São Mateus do Sul, vinculado ao Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR). Como pesquisador e escritor, dedica-se à análise crítica das instituições públicas, investigando temas como judicialização, lawfare, políticas públicas e erosão democrática. É autor das obras Insuficiência da Legislação Brasileira no Combate ao Ransomware (2022) e A Sombra do Crime (2025).

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